Histórias reais sobre comida, corpo e identidade
- Marise Berg
- há 3 dias
- 2 min de leitura

Tem novidade no ar!
Meu trabalho no consultório passou por uma transformação importante.
A Nutrição Terapêutica ganhou novas ferramentas com a incorporação do Mindfulness e da Autocompaixão no cuidado do comer emocional.
Foi dessa prática clínica que nasceu Por trás do Garfo.
São histórias inspiradas em pessoas reais que passaram pelo consultório, sobre a relação entre comida, corpo e identidade.
Acredito que muitas pessoas poderão se reconhecer nessas personagens e compreender, de forma mais palpável, como acontece esse processo de cuidado.
A primeira delas é A Lua se reacendeu, a história de uma mulher que acreditava precisar de mais uma dieta quando, na verdade, havia se desconectado de si mesma.

Lua é aquela grande amiga com quem, por inúmeras razões da vida, passei anos sem me encontrar pessoalmente. Mas é aquele tipo de amizade que não se corrompe com o tempo. Retomamos o fio da meada e a mesma intimidade, como se tivéssemos nos visto no domingo passado.
Me conta que acabou de comer um cachorro-quente porque vinha na consulta com a “Nutri”. “É meu último dia de gorda”! E gargalha.
Lua tem essa característica de todas as minhas amigas íntimas: gargalhamos da desgraça. Acabo de me dar conta de que talvez essa seja uma característica minha que encontra ressonância nelas. Talvez tenha aprendido isso com Lua.
Está com 80 kg, o que ainda é um sobrepeso, mas não chega a ser obesidade. Sente-se gorda pela primeira vez. Pesada. “Está tudo errado”. Gosta de chocolate e Coca zero. À tarde e noite sempre é pior.
“Como por ansiedade, sou uma safada! É triste!”
A palavra safada é uma tijolada! Meu coração se aperta e tenho que fincar os pés no chão e respirar para continuar ouvindo a Lua. Mas safada segue ecoando dentro de mim.
Safada é um julgamento desmoralizante que desconsidera toda a história de aflição e reduz o valor da pessoa a um rótulo simplista. Me pergunto onde aprendemos que a autocrítica funcionaria para nos motivar.
Fazemos um exercício inicial e detectamos um padrão: há alto desagrado combinado com alta energia. Pessoas com alto desagrado costumam reclamar, se irritar, perder a paciência. Mas Lua gargalha, faz piadas e usa o sarcasmo para evitar conflitos. Por dentro, sobrevive confinada e se debatendo, toda a energia da frustração por necessidades invalidadas, machucados não tratados, atropelamentos não reconhecidos. É essa energia que cutuca e pede por doces para obter prazer e aliviar a tensão.





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